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Políticas públicas que alcançam a floresta impulsionam produção familiar na Resex Cazumbá-Iracema e fortalecem renda e educação

Um território que se desenvolve unindo a força da tradição ao que há de mais moderno na construção de uma economia verdadeiramente sustentável. Uma...

Redação
Por: Redação Fonte: Secom Acre
14/06/2026 às 11h46
Políticas públicas que alcançam a floresta impulsionam produção familiar na Resex Cazumbá-Iracema e fortalecem renda e educação
Foto: Reprodução/Secom Acre

Um território que se desenvolve unindo a força da tradição ao que há de mais moderno na construção de uma economia verdadeiramente sustentável. Uma comunidade que, assim como o poder público, depende da união de muitas mãos para que as políticas públicas alcancem o coração da floresta, levando dignidade e oportunidades a quem se tornou guardião da maior riqueza do estado: sua fauna e sua flora.

Comunidade alia saberes tradicionais a tecnologia. Foto: Raylanderson Frota/Secom
Comunidade alia saberes tradicionais a tecnologia. Foto: Raylanderson Frota/Secom

Criada em 2002 sob esse conceito, a Reserva Extrativista (Resex) Cazumbá-Iracema, situada entre os municípios acreanos de Sena Madureira e Manoel Urbano, abrange mais de 754 mil hectares de floresta ombrófila (ou floresta pluvial) — um tipo de vegetação tropical dependente de altos índices de chuva e ausência de estação seca. Ao longo de sua trajetória, a unidade de conservação (UC) tem consolidado uma forma singular e transformadora de educação ambiental e sustentabilidade.

Ações articuladas entre o governo federal, por meio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), e o governo estadual têm garantido iniciativas que promovem cidadania, fortalecem a participação comunitária e criam condições para que o desenvolvimento avance sem comprometer o meio ambiente.

Entre essas políticas, destaca-se a iniciativa conduzida pela Secretaria de Estado de Agricultura (Seagri), que, nos próximos dias, lançará o Programa Estadual de Aquisição de Alimentos (PAA), ampliando oportunidades e fortalecendo a economia das famílias extrativistas.

Moradores se organizam para vender produtos ao PAA na unidade de conservação. Foto: Raylanderson Frrota/Secom
Moradores se organizam para vender produtos ao PAA na unidade de conservação. Foto: Raylanderson Frrota/Secom

Sistemas agroflorestais integrados

O vice-presidente da Associação dos Seringueiros do Seringal Cazumbá (Assc), Daian Silva, explica que a produção na reserva extrativista é baseada em sistemas agroflorestais integrados.

Segundo o gestor, a castanha e a farinha são as principais fontes de renda das famílias, enquanto a borracha é utilizada principalmente no artesanato, especialmente na produção de miniaturas. Silva destaca que recentemente a comunidade participou de uma oficina promovida pela Seagri sobre o PAA. Algumas famílias já conseguiram fornecer produtos para a merenda escolar.

“Isso tem sido muito importante. O ICMBio trouxe essa parceria e ajudou a comunidade a entender como acessar essas políticas. No ano passado, conseguimos entregar para o Programa Nacional de Alimentação Escolar [Pnae], e este ano acreditamos que vai dar certo novamente”, diz.

Para Daian, a política fortalece a renda local e valoriza os produtos da floresta, garantindo que alimentos produzidos na própria reserva cheguem às escolas.

A associação também tem investido em capacitações, para melhorar a qualidade dos produtos e orientar os extrativistas sobre o acesso a políticas públicas. Produtores de farinha, por exemplo, já passaram por diversos cursos de aperfeiçoamento. Com o ICMBio, buscamos fortalecer essas ações e levar esse conhecimento para outras comunidades que ainda não acessam essas políticas”, explica.

Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema está localizada entre Sena Madureira e Manoel Urbano. Foto: Raylanderson Fronta/Secom
Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema está localizada entre Sena Madureira e Manoel Urbano. Foto: Raylanderson Fronta/Secom

Mapeamento

Um dos desafios atuais é a organização dos dados para o Plano Estadual, etapa necessária para mapear a produção de cada família. “Precisamos saber exatamente o que cada um produz e em que quantidade. Isso ajuda a planejar melhor e a acessar políticas como transporte, que é uma das nossas maiores dificuldades”, afirma.

Segundo o vice-presidente, muitas famílias têm produção suficiente, mas o custo para levar os produtos até a cidade inviabiliza a comercialização direta. Com a chegada do verão amazônico, a comunidade também se mobiliza para a abertura dos ramais com um trabalho coletivo, que envolve cerca de 20 famílias.

“A gente se organiza em grupos. Dependemos muito das colocações mais distantes para a produção do artesanato, da castanha, da seringa e da borracha”, relata. Nos próximos dias, começam as primeiras atividades, como a construção de pontes que dão acesso às áreas de produção. A comunidade também apoia a prefeitura no acompanhamento das máquinas e na retirada de madeira para as pontes.

Além disso, os moradores realizam mutirões de limpeza e manutenção das áreas comuns. Há ainda grupos de troca de serviços entre produtores, especialmente na limpeza de roçados. “Quando alguém está doente e não consegue realizar suas atividades, a comunidade se reúne para fazer o serviço por aquela família. É assim que a gente funciona: na união e no apoio mútuo”, define.

Seagri está coordenando o PAA nas unidades de conservação do estado. Foto: Raylanderson Frota/Secom
Seagri está coordenando o PAA nas unidades de conservação do estado. Foto: Raylanderson Frota/Secom

PAA nas unidades de conservação

O chefe da Divisão de Apoio à Produção Familiar da Secretaria de Agricultura, Igor Honorato, explica que o Estado atua em parceria com o ICMBio na mobilização e execução do novo programa de apoio aos extrativistas. Segundo o gestor, o governo dispõe de R$ 2,1 milhões para implementar a proposta. “Estamos trabalhando em conjunto com o ICMBio na mobilização e execução dessa iniciativa”, afirma Honorato.

As ações abrangem seis unidades de conservação: Resex Chico Mendes, Resex Cazumbá-Iracema, Resex Alto Tarauacá, Resex Riozinho da Liberdade, Resex Alto Juruá e a Floresta Natural (Flona) Santa Rosa do Purus.

A meta, segundo informa, é adquirir produtos da agricultura familiar de 280 extrativistas e destiná-los às escolas das próprias comunidades. “Já concluímos a etapa de cadastro e inserção das informações no sistema do PAA. Agora vamos iniciar as oficinas de primeira entrega e a garantia da compra”, explica.

Honorato destaca que a previsão é assegurar a aquisição dos alimentos ao longo de todo o ano de 2026. Cada agricultor deverá receber até R$ 7.500 em compras, conforme os itens definidos pelo programa. “Os recursos são do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social [MDS], mas toda a logística, execução e planejamento ficam sob responsabilidade da Seagri. O MDS garante apenas o recurso da compra dos alimentos; todos os demais custos são arcados pelo Estado”, reforça.

Iniciativa contemplou mulheres indígenas e ribeirinhas que vivem na UC, ampliando o acesso a informações e à rede de proteção. Foto: Danniely Silva/Semulher
Iniciativa contemplou mulheres indígenas e ribeirinhas que vivem na UC, ampliando o acesso a informações e à rede de proteção. Foto: Danniely Silva/Semulher

Cuidado com a mulher

Em março, a Secretaria de Estado da Mulher (Semulher) fez uma ação de atendimento e conscientização na reserva, com o objetivo de orientar sobre a prevenção da violência contra a mulher.

A iniciativa contemplou mulheres indígenas e ribeirinhas que vivem na UC, ampliando o acesso a informações e à rede de proteção. Durante as atividades realizadas na comunidade do Cazumbá, foram atendidas 4 mulheres negras, 48 pardas, 3 brancas, 34 indígenas e 20 homens, demonstrando o alcance e a diversidade do público beneficiado.

A secretária de Estado da Mulher, Simone Santiago, destaca que uma das prioridades da pasta é ampliar a presença e o alcance das políticas públicas nos municípios mais distantes, especialmente onde o acesso à informação ainda é limitado.

Segundo a gestora, o trabalho é construído de forma integrada, em parceria com prefeituras, sociedade civil e demais órgãos do governo do Estado, sempre com o objetivo de chegar às mulheres que mais precisam.

Nesta semana, Simone esteve com a equipe da secretaria nos municípios de Cruzeiro do Sul, Rodrigues Alves e Mâncio Lima, onde se reuniu com gestores, autoridades locais e profissionais que atuam diretamente na rede de proteção. “O objetivo foi fortalecer o atendimento e aprimorar as ações voltadas às mulheres”, destaca.

Em Cruzeiro do Sul, a Semulher realizou a entrega de certificados às participantes do curso de customização de camisetas e promoveu a Plenária Temática de Escuta da Sociedade Civil, considerada fundamental para aproximar a secretaria da população e compreender as demandas específicas de cada território.

“Em todas as agendas, recebemos pedidos para ampliar a oferta de cursos e levar nossos programas. Muitas das nossas ações nascem desse diálogo direto com a comunidade”, expõe a secretária.

A Semulher também mantém o Ônibus Lilás, que percorre municípios acessíveis por estrada, oferecendo orientação psicológica, jurídica e social, além de rodas de conversa sobre prevenção à violência, direitos das mulheres e canais de denúncia. Nas localidades de acesso fluvial, as equipes se deslocam por rio, para garantir que o atendimento chegue às comunidades mais isoladas.

Entre as ações recentes, Simone destaca a visita à Aldeia Maria Monteza, em Assis Brasil, onde foram realizadas rodas de conversa com mulheres indígenas e distribuídas cartilhas da Lei Maria da Penha traduzidas para as línguas Manchineri e Huni Kuĩ — uma demanda apresentada pela própria comunidade indígena.

“Nosso compromisso é chegar a todas as mulheres acreanas, seja pelas estradas ou pelos rios. É um trabalho diário, que vamos continuar fortalecendo para ampliar o alcance das ações e consolidar a rede de proteção. Seguiremos com as portas abertas para acolher, orientar e apoiar todas as mulheres que precisarem”, enfatiza.

São 500 famílias que vivem na reserva e vivem com sustentabilidade. Foto: Raylanderson Frota/Secom
São 500 famílias que vivem na reserva e vivem com sustentabilidade. Foto: Raylanderson Frota/Secom

Um território movido a coletividade

O líder comunitário Aldeci Maia, conhecido como “Nenzinho”, é presidente da Assc e relembra que a história da Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema começou muito antes de sua criação oficial.

Maia conta que, originalmente, toda a área era destinada a um projeto de assentamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). “Nos anos 1980, tentei sensibilizar a comunidade e o próprio Incra de que não seria adequado criar um assentamento agrícola aqui. O mais importante era a criação de uma reserva extrativista”, narra.

Segundo a liderança, a experiência com assentamentos desde o fim da década de 1970 mostrava que muitas famílias acabavam deixando o campo e migrando para a cidade, o que enfraquecia o modo de vida extrativista. Quando o Incra iniciou a demarcação da área, Nenzinho liderou um movimento para mudar o destino do território.

“Insisti, lutei, conversei e, em 19 de setembro de 2002, saiu o decreto de criação da reserva. Eu estava lá, com outras pessoas que ajudaram, inclusive as que eram contra, porque, de certa forma, elas me fortaleceram”, recorda.

Aldeci explica que, com a queda do preço da borracha nos anos 1980 e 1990, muitos extrativistas deixaram a floresta. Os que permaneceram estavam prestes a seguir o mesmo caminho. Nenzinho, que atuava como monitor da Igreja Católica, diz que aprendeu que “o ser humano não vive só de pão, nem só da palavra de Deus, mas também de dignidade”. Foi essa reflexão que o levou a dividir sua colocação com outras famílias, criando uma rede de apoio que garantia escola, saúde, transporte e segurança alimentar.

“Comecei com 12 famílias. Hoje são 45, e não me arrependo. Isso foi antes mesmo da criação da reserva, quando fundamos o núcleo de base do Cazumbá, em 31 de dezembro de 1984”, relata.

Com a criação da unidade, em 2002, foi convidado a integrar a gestão da reserva e deixou sua colocação para assumir o novo desafio. Hoje, a Reserva Cazumbá-Iracema reúne cerca de 500 famílias distribuídas em cinco macrorregiões — Alto Caeté, Médio Caeté, Cazumbá, Irmãos Redenção, Jacareú, Riozinho e Cachoeira. Para facilitar a organização comunitária, foram criados núcleos de base, que discutem demandas específicas e encaminham as pautas à associação.

“Cada núcleo tem um presidente e um conselheiro, que fazem parte da diretoria. Todo início de ano realizamos uma assembleia para planejar as ações”, explica.

No ano passado, a comunidade elaborou um Plano de Vida para os próximos dez anos, estruturado em três eixos — saúde, educação e produção — além da organização comunitária. O transporte aparece como ponto central. “Ninguém produz sem transporte, e ninguém tem transporte sem produção. Tudo está interligado”, resume Nenzinho.

Nenzinho relata como foi a criação da reserva e sua importância para a preservação da história e cultura local. Foto: Raylanderson Frota/Secom
Nenzinho relata como foi a criação da reserva e sua importância para a preservação da história e cultura local. Foto: Raylanderson Frota/Secom

Aprendizado no dia a dia

Maia destaca ainda que a gestão da Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema só avançou graças ao envolvimento de diferentes instituições ao longo dos anos. “Tivemos o privilégio de contar com pessoas muito comprometidas, desde o Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] até o ICMBio, além de muitos parceiros. Pesquisadores, visitantes e instituições ajudam a construir essa gestão”, informa.

Para o presidente, quem chega à reserva também passa a integrar esse processo: “Divulgar, dialogar e apontar o que funciona e o que precisa melhorar também é gestão”.

Nenzinho lembra que as reservas extrativistas foram criadas para garantir a permanência das populações tradicionais no território, mas também para assegurar qualidade de vida, pois não adianta garantir a terra sem assegurar educação, saúde, produção e dignidade.

E recorda que grande parte das famílias da região descende de migrantes nordestinos que enfrentaram décadas de dificuldades até efetivamente se estabelecerem na floresta. A renda das famílias, explica, é diversificada, mas marcada por desafios. A borracha, que já foi o principal produto, hoje tem baixa produção. E apenas cerca de 10% das famílias ainda trabalham com castanha.

Mulheres se organizam em núcleos para produção de artesanato. Foto: Raylanderson Frota/Secom
Mulheres se organizam em núcleos para produção de artesanato. Foto: Raylanderson Frota/Secom

O artesanato se concentra no núcleo do Cazumbá, mas também a coleta de óleo de copaíba e de seiva de jatobá, assim como a criação de animais complementam a renda. “O carro-chefe é a farinha. Por isso, trabalhamos para melhorar a qualidade dos produtos e agregar valor”, completa o presidente.

A educação, ali, é o eixo que mais transformou a realidade da reserva. Quando a unidade foi criada, havia apenas três escolas, para 240 famílias espalhadas pela floresta. Hoje, são 19 unidades de ensino, seis delas oferecendo também ensino médio. “Praticamente todas as crianças estão estudando. Isso é maravilhoso, porque garante que, se um jovem decidir sair da reserva, vai sair preparado”, projeta.

Ainda segundo o gestor, 99% dos professores são moradores da comunidade, o que propicia que o conhecimento dialogue com o território. “O aprendizado não está só na escola, está no dia a dia. A reserva precisa de um modelo de educação que ensine a produzir e a viver melhor nesse território imenso, de 750 mil hectares”, reflete.

A educação, diz, é o que permite que as pessoas enxerguem a riqueza da floresta e encontrem caminhos para prosperar sem destruí-la: “Sou apaixonado pela educação. Ela tira a venda dos olhos. Não determina o que você vai ser, mas te dá condições de escolher. Para um povo tradicional, ela precisa gerar empoderamento “.

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